Queijos artesanais: Como a microbiota, a maturação, o terroir e os processos tradicionais influenciam as características dos queijos
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1.Introdução
Os queijos artesanais destacam-se nos sistemas alimentares por integrarem dimensões nutricionais, culturais, econômicas e científicas em um único alimento. Eles representam a convergência entre recursos naturais, conhecimentos tradicionais e processos biológicos complexos, dando origem a produtos cuja identidade está intimamente relacionada ao território, às comunidades produtoras e à diversidade dos sistemas agroalimentares.
No Brasil, considera-se queijo artesanal aquele elaborado majoritariamente por métodos tradicionais, em pequena escala e com predominância do trabalho manual, podendo ser produzido a partir de leite cru ou pasteurizado, desde que preservadas as características históricas e culturais do processo produtivo e atendidos os requisitos da legislação sanitária vigente. Essa definição contempla uma diversidade de produtos regionais distribuídos pelo território nacional, que representam as condições ambientais, os sistemas de produção e os saberes característicos de seus territórios de origem .
Fornecendo valor nutricional, esses produtos representam importantes ativos da agricultura familiar e do desenvolvimento regional, integram o patrimônio alimentar de diferentes territórios. Sua relevância histórica, social, cultural e econômica evidenciam a importância da valorização e da preservação dos saberes tradicionais que sustentam sua produção.
Sob a perspectiva da ciência dos alimentos, os queijos artesanais distinguem-se pela elevada complexidade microbiológica e bioquímica, decorrente da interação entre a microbiota, a composição do leite e os processos de fermentação e maturação, que determinam suas características sensoriais e influenciam sua composição nutricional. A preservação dessa peculiaridade deve ser conciliada com a garantia da segurança dos alimentos, especialmente nos produtos elaborados com leite cru, o que torna o equilíbrio entre tradição, qualidade e inocuidade um dos principais desafios contemporâneos do setor.
2. Identidade cultural e patrimônio imaterial
2.1 A construção histórica da identidade dos queijos artesanais
A produção de queijo surgiu há aproximadamente 8.000 anos, acompanhando a domesticação de ruminantes e a consolidação das primeiras sociedades agropastoris. A necessidade de conservar o leite, alimento altamente perecível, levou ao desenvolvimento das primeiras técnicas de coagulação e fermentação, que originaram um dos alimentos fermentados mais antigos da humanidade.
Com a expansão das atividades pastoris e das rotas comerciais, a produção de queijo difundiu-se pela Europa, Oriente Médio e Norte da África, sendo continuamente aperfeiçoada por diferentes civilizações. Ao longo dos séculos, fatores como clima, disponibilidade de recursos naturais, espécies animais, práticas de manejo e conhecimentos locais favoreceram o surgimento de inúmeras variedades, consolidando o queijo como um importante elemento da identidade cultural de diversos povos. Desde a década de 1990, a União Europeia protege diversos produtos agroalimentares tradicionais por meio dos sistemas de Denominação de Origem Protegida (DOP) e Indicação Geográfica (IG), que certificam a relação entre a origem geográfica, os métodos tradicionais de produção e as características que conferem identidade e qualidade aos alimentos.
No Brasil, a tradição queijeira teve início durante o período colonial, com a introdução da pecuária bovina pelos portugueses e a adaptação de técnicas europeias às condições ambientais e socioculturais locais. Embora inspirados em modelos portugueses, os queijos brasileiros adquiriram identidade própria em função das características dos rebanhos, da vegetação, da microbiota regional e dos conhecimentos acumulados pelas comunidades produtoras ao longo de mais de três séculos.
O Queijo Minas Artesanal é um exemplo dessa adaptação histórica. Sua produção consolidou-se durante o ciclo do ouro, quando o abastecimento das regiões mineradoras impulsionou o desenvolvimento da pecuária leiteira no interior de Minas Gerais, tornando-se posteriormente uma importante atividade econômica e cultural. De forma semelhante, outras regiões brasileiras desenvolveram variedades próprias, como o queijo colonial, associado à imigração europeia no Sul; o queijo serrano, produzido nos campos de altitude; o queijo coalho, característico do Nordeste; e o queijo do Marajó, elaborado tradicionalmente com leite de búfala na região amazônica.
Apesar da consolidação dessas tradições, a produção artesanal enfrentou importantes desafios ao longo da segunda metade do século XX, quando a expansão da indústria de laticínios e a adoção de normas sanitárias voltadas à produção em larga escala dificultaram a inserção dos pequenos produtores nos mercados formais, especialmente daqueles que utilizavam leite cru. Nas últimas décadas, entretanto, observa-se um movimento de revalorização dos queijos artesanais, impulsionado pelo aperfeiçoamento do marco regulatório, pelo reconhecimento das Indicações Geográficas e pela crescente demanda dos consumidores por alimentos associados à origem, autenticidade e qualidade sensorial.
2.3 Terroir, saber-fazer e patrimônio cultural
A singularidade destes produtos artesanais resulta da interação entre fatores ambientais, biológicos e culturais, sintetizada pelo conceito de terroir. Inicialmente desenvolvido para a vitivinicultura, esse conceito passou a ser aplicado aos queijos ao reconhecer que características como clima, solo, vegetação, alimentação dos animais, raça do rebanho, práticas de manejo e técnicas tradicionais influenciam diretamente a composição do leite e, consequentemente, as propriedades sensoriais do produto final.
Em um período recente, essa ideia foi ampliada pela incorporação do chamado terroir microbiano, segundo o qual a microbiota característica de cada ambiente produtivo também participa da construção das características dos alimentos fermentados.
O saber-fazer é outro componente relevante da identidade desses queijos. Esse conhecimento envolve um conjunto de práticas transmitidas entre gerações, frequentemente por meio da aprendizagem familiar, que abrange desde o manejo dos animais até as técnicas de fabricação e maturação. Trata-se de um bem vivo, constantemente adaptado às condições locais sem perder sua base tradicional.
No Brasil, esse reconhecimento ganhou maior visibilidade com o registro, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), dos Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal como patrimônio cultural brasileiro e, posteriormente, com sua inscrição, em 2024, na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. Além de reconhecer o valor histórico e cultural dessa tradição, esse título fortalece estratégias de conservação da agrobiodiversidade, impulsiona o turismo gastronômico e rural e amplia a valorização econômica dos territórios produtores.
3. Agricultura Familiar, Desenvolvimento Territorial e Sustentabilidade Socioeconômica
A produção artesanal de queijos é uma estratégia de agregação de valor à produção leiteira da agricultura familiar. Ao transformar um produto altamente perecível em um alimento de maior valor comercial e maior vida útil, os produtores reduzem a dependência das oscilações do mercado de leite in natura e ampliam sua autonomia econômica. Essa transformação fortalece a viabilidade das pequenas propriedades rurais e contribui para a diversificação das fontes de renda, aspecto particularmente relevante em sistemas produtivos familiares caracterizados por baixa escala de produção.
Diferentemente das cadeias agroindustriais altamente centralizadas, os sistemas artesanais tendem a manter parcela significativa do valor agregado no próprio território, estimulando a circulação de recursos entre produtores, fornecedores locais, agroindústrias, cooperativas, restaurantes, mercados especializados e atividades ligadas ao turismo rural e gastronômico. Os queijos artesanais inserem-se em modelos de desenvolvimento baseados em cadeias curtas de comercialização, que aproximam produtores e consumidores, fortalecem economias locais e valorizam produtos associados à identidade regional.
Sob a perspectiva da sustentabilidade, a atividade queijeira também contribui para a conservação da agrobiodiversidade e dos sistemas alimentares tradicionais. A manutenção de raças adaptadas às condições locais, o aproveitamento de pastagens nativas, a preservação de práticas produtivas tradicionais e o uso de culturas microbianas autóctones representam elementos fundamentais para a conservação do legado biológico e cultural associado aos territórios produtores.
Outro ponto de destaque refere-se à economia circular presente em muitas propriedades familiares. O soro gerado durante a fabricação pode ser destinado à alimentação animal ou utilizado como matéria-prima para novos produtos lácteos, enquanto resíduos orgânicos frequentemente retornam ao sistema produtivo por meio da compostagem ou da adubação das pastagens. Essas práticas reduzem perdas, aumentam a eficiência no uso dos recursos e reforçam a sustentabilidade ambiental das pequenas agroindústrias rurais.
Mesmo com esse potencial, a cadeia produtiva dos queijos artesanais está sujeita a desafios. A sucessão familiar permanece como um dos fatores limitantes para a continuidade da atividade, especialmente em regiões marcadas pelo envelhecimento da população rural e pela migração de jovens para centros urbanos em busca de melhores oportunidades de trabalho e educação. A permanência das novas gerações depende da rentabilidade da atividade, do acesso à assistência técnica, à inovação, ao crédito, à infraestrutura, à conectividade digital e aos mercados consumidores.
A adequação às exigências sanitárias e regulatórias é uma questão prioritária. A implementação de boas práticas agropecuárias e de fabricação, a rastreabilidade da produção e o cumprimento da legislação representam investimentos significativos para pequenos produtores. Avanços recentes na regulamentação brasileira, como a criação do Selo Arte e o fortalecimento das Indicações Geográficas, têm favorecido a inserção desses produtos em mercados formais sem descaracterizar os métodos tradicionais de produção. O movimento demonstra que segurança dos alimentos, valorização cultural e desenvolvimento econômico podem coexistir quando políticas públicas, pesquisa científica e assistência técnica atuam de forma integrada.
4. Ciência dos alimentos: microbiologia e bioquímica dos queijos artesanais
4.1 Microbiota nativa e construção da identidade sensorial
Os queijos artesanais são ecossistemas microbianos complexos, nos quais a interação entre bactérias, leveduras e fungos determina grande parte das características fisico-químicas, sensoriais e tecnológicas do produto final. Diferentemente da produção industrial, em que predominam culturas iniciadoras padronizadas, os queijos artesanais, especialmente aqueles elaborados com leite cru, preservam uma microbiota autóctone diversificada, composta por microrganismos provenientes do leite, do ambiente de fabricação, dos utensílios, das superfícies de maturação e das culturas endógenas tradicionalmente utilizadas em cada região.
Entre os principais grupos microbianos destacam-se as bactérias ácido-láticas pertencentes aos gêneros Lactococcus, Lactobacillus, Lacticaseibacillus, Leuconostoc, Streptococcus e Enterococcus, além de leveduras como Debaryomyces hansenii e fungos filamentosos dos gêneros Penicillium e Geotrichum, responsáveis pelo desenvolvimento de características específicas durante a maturação. A composição dessa microbiota varia de acordo com fatores como espécie animal, alimentação, estação do ano, condições ambientais e práticas de fabricação, constituindo um dos principais determinantes da tipicidade desses produtos.
Além das culturas iniciadoras, os queijos artesanais apresentam elevada diversidade de bactérias ácido-láticas não iniciadoras (Non-Starter Lactic Acid Bacteria- NSLAB), cuja importância tem sido amplamente demonstrada em estudos recentes. Embora não participem diretamente da acidificação inicial da massa, essas bactérias tornam-se predominantes durante a maturação e agem na proteólise, lipólise e formação de compostos voláteis responsáveis pelo aroma e sabor característicos dos diferentes tipos de queijo. Diversas espécies também apresentam potencial bioprotetor, produzindo bacteriocinas e outros metabólitos capazes de inibir microrganismos deteriorantes e patogênicos, contribuindo simultaneamente para a segurança microbiológica e para a estabilidade do produto.
O desenvolvimento das técnicas de sequenciamento de nova geração (NGS) e de abordagens metagenômicas ampliou significativamente o conhecimento sobre os ecossistemas microbianos dos queijos artesanais, demonstrou que sua identidade resulta da interação dinâmica entre a microbiota nativa e as condições ambientais de cada território, conceito conhecido como terroir microbiano.
4.2 Maturação: transformações bioquímicas e formação da matriz alimentar
A maturação é a etapa na qual ocorrem transformações bioquímicas responsáveis pelo desenvolvimento da textura, do aroma, da cor, do sabor e das propriedades nutricionais. Esses fenômenos resultam da ação integrada de enzimas endógenas do leite, enzimas do coalho ou coagulante e enzimas produzidas pela microbiota presente no queijo.
Usualmente, a maturação é descrita a partir de três processos principais: glicólise, proteólise e lipólise. Entretanto, essas vias metabólicas ocorrem de forma simultânea e com algum grau de interdependência, formando uma complexa rede de reações bioquímicas.
A glicólise corresponde ao metabolismo residual da lactose e do citrato pelas bactérias ácido-láticas, que promove a produção de ácido lático e outros metabólitos que influenciam o pH, a estabilidade microbiológica e o desenvolvimento inicial do sabor. A redução do pH cria condições favoráveis para a atuação das enzimas responsáveis pelas etapas subsequentes da maturação.
Na proteólise, inicialmente, as caseínas são hidrolisadas por enzimas do coalho ou coagulante e pela plasmina naturalmente presente no leite. Posteriormente, peptidases produzidas pelas bactérias ácido-láticas degradam os peptídeos formados em aminoácidos livres, que atuam tanto como precursores de compostos aromáticos quanto como substratos para novas reações metabólicas. A intensidade da proteólise determina alterações importantes na textura e contribui decisivamente para o perfil sensorial característico de cada variedade.
Além da influência tecnológica, a proteólise possui relevância nutricional, pela liberação de peptídeos bioativos com potenciais atividades anti-hipertensivas, antioxidantes, antimicrobianas e imunomoduladoras, cuja formação depende da composição da microbiota e das condições de maturação. Embora muitos desses efeitos ainda estejam sob investigação clínica, a literatura demonstra que a fermentação modifica profundamente a matriz proteica do queijo, ampliando o interesse desses alimentos sob a perspectiva da nutrição funcional.
A lipólise consiste na hidrólise dos triacilgliceróis do leite, liberando ácidos graxos livres, monoacilgliceróis, diacilgliceróis e glicerol, que constituem importantes precursores de aldeídos, cetonas, álcoois, lactonas, ésteres e outros metabólitos voláteis responsáveis pelos aromas complexos observados em queijos maturados. A intensidade desse processo varia entre as diferentes variedades e depende da atividade das lipases naturais do leite, do coalho e dos microrganismos presentes durante a maturação. Essas transformações demonstram que o queijo é uma matriz alimentar dinâmica, cuja composição química sofre modificações contínuas ao longo da maturação.
4.3 Leite cru versus leite pasteurizado: qualidade sensorial e segurança microbiológica
A utilização de leite cru na fabricação de queijos artesanais permanece como um dos temas mais discutidos na ciência dos alimentos. Enquanto a pasteurização reduz significativamente a carga microbiana e aumenta a previsibilidade do processo produtivo, o leite cru preserva enzimas naturais e uma microbiota diversificada que participa ativamente da maturação, conferindo maior complexidade sensorial aos produtos.
Diversos estudos demonstram que queijos produzidos com leite cru apresentam maior diversidade microbiana e perfis mais complexos de compostos voláteis quando comparados aos elaborados com leite pasteurizado, o que se reflete diretamente em diferenças de aroma, textura e sabor. A diversidade microbiológica consiste em um dos principais elementos responsáveis pela tipicidade dos queijos artesanais e explica, em parte, a dificuldade de reproduzir suas características utilizando culturas comerciais padronizadas.
Entretanto, a utilização de leite cru exige rigoroso controle das condições higiênico-sanitárias desde a produção primária até a maturação. A presença eventual de microrganismos patogênicos, como Listeria monocytogenes, Salmonella spp., Escherichia coli produtora de toxina Shiga e Staphylococcus aureus, representa risco potencial quando boas práticas agropecuárias e de fabricação não são adequadamente implementadas (EFSA, 2015). A segurança microbiológica dos queijos artesanais não depende exclusivamente da pasteurização, mas de um conjunto integrado de medidas que incluem saúde do rebanho, qualidade do leite, higiene durante a ordenha, controle do processo produtivo e condições adequadas de maturação.
A maturação contribui para a redução da viabilidade de diversos patógenos em razão da diminuição da atividade de água, da acidificação, do aumento da concentração de sal e da competição exercida pela microbiota lática. A literatura demonstra que o tempo de maturação, isoladamente, não constitui garantia absoluta de segurança microbiológica, sendo necessário considerar as características específicas de cada tipo de queijo e validar cientificamente os processos empregados.
O debate contemporâneo sobre leite cru e leite pasteurizado vai além da dicotomia entre tradição e segurança. A tendência atual é reconhecer que a preservação das características sensoriais e culturais dos queijos artesanais pode coexistir com elevados padrões de inocuidade, desde que a produção seja fundamentada em boas práticas agropecuárias, monitoramento microbiológico, rastreabilidade e regulamentação baseada em evidências científicas.
5 .Segurança sanitária e inocuidade em escala artesanal
5.1 Desafios de produção com o leite cru
Garantir a inocuidade dos queijos artesanais produzidos a partir do leite cru é um exercício constante de equilíbrio entre a preservação da microbiota nativa — responsável pela singularidade sensorial do produto — e o controle rigoroso dos fatores que evitam a contaminação por microrganismos patogênicos. A segurança desses alimentos depende tanto da qualidade sanitária da matéria-prima quanto do rigor no manejo ambiental ao longo do processamento e da cura.
Embora o leite cru possa abrigar patógenos como Listeria monocytogenes, Staphylococcus aureus, Salmonella spp. e Escherichia coli, as populações iniciais desses agentes costumam ser reduzidas quando o rebanho é saudável e a ordenha é higiênica. A avaliação de risco nesses produtos apresenta complexidades específicas: regras regulatórias genéricas, a exemplo da exigência de maturação mínima por 60 dias, nem sempre se aplicam de forma uniforme a todas as variedades. Em queijos maturados por fungos superficiais, por exemplo, a elevação progressiva do pH durante a cura pode criar condições favoráveis à reativação ou multiplicação de determinados patógenos.
O comportamento desses microrganismos varia significativamente ao longo do processo produtivo. O S. aureus exige atenção especial devido à capacidade de sintetizar enterotoxinas termoestáveis durante as etapas iniciais de fermentação. Em certas variedades tradicionais, como o queijo Cotija, o microrganismo pode permanecer detectável ao final de 60 dias de maturação, apesar do declínio populacional observado nas fases intermediárias. A L. monocytogenes, por sua vez, embora resista às etapas iniciais de fabricação, tende a sofrer expressiva redução ao redor do 15º dia de cura, podendo atingir a eliminação completa ao longo do período de maturação. Sua presença em produtos acabados relaciona-se, predominantemente, a contaminações ambientais no ambiente de processamento. Já a Salmonella spp. demonstra menor persistência na matriz queijeira, apresentando um declínio acelerado que a torna frequentemente indetectável após 60 dias.
Diante dessas dinâmicas, o monitoramento microbiológico ambiental consolida-se como ferramenta indispensável. O emprego de métodos modernos de diagnóstico, como a combinação de enriquecimento duplo e PCR, proporciona maior rapidez e sensibilidade na identificação de pontos críticos nas queijarias, permitindo correções preventivas antes que eventuais falhas comprometam o produto.
5.2 Tecnologia de barreiras
A segurança microbiológica dos queijos artesanais assenta-se no conceito de tecnologia de barreiras, no qual múltiplos fatores físico-químicos e biológicos atuam em conjunto para impedir o desenvolvimento de microrganismos indesejáveis. Essa proteção resulta da interação contínua entre a microbiota autóctone e as transformações na matriz do queijo ao longo da maturação.
As bactérias ácido-láticas desempenham papel central nesse ecossistema. Espécies como Lactococcus lactis promovem uma rápida acidificação inicial por meio da conversão da lactose em ácido lático, estabelecendo um meio adverso para a maioria dos patógenos. Essa ação é reforçada pela sinergia com outras bactérias Gram-positivas não láticas, que juntas inibem a proliferação de agentes como L. monocytogenes, enquanto leveduras e bactérias Gram-negativas exercem influência secundária ou nula nesse controle específico. À medida que a cura avança, a síntese de ácidos orgânicos, álcoois e ésteres consolida um ambiente químico favorável à estabilidade do produto.
A biopreservação surge como uma estratégia promissora para reforçar esses mecanismos naturais. O uso de culturas láticas selecionadas, capazes de produzir bacteriocinas, tem demonstrado eficácia na inibição do crescimento de S. aureus e na prevenção da síntese de suas toxinas, sem alterar as qualidades sensoriais do leite cru. Adicionalmente, tecnologias complementares, como o processamento por alta pressão isostática, vêm sendo estudadas por sua capacidade de atuar sinergicamente com bacteriocinas, reduzindo as cargas microbianas patogênicas e assegurando elevado padrão sanitário à produção artesanal.
5.3 Boas Práticas de Fabricação (BPF)
A consolidação de Boas Práticas de Fabricação (BPF) nas pequenas queijarias constitui o alicerce para a obtenção de alimentos seguros, garantindo a proteção à saúde do consumidor sem descaracterizar a riqueza microbiana e o saber-fazer tradicional. As ações preventivas visam mitigar riscos físicos, químicos e biológicos, integrando os requisitos sanitários à realidade estrutural e socioeconômica do produtor rural.
A atenção à infraestrutura sanitária e à higiene dos manipuladores é prioritária. Estudos diagnósticos em regiões produtoras tradicionais, como a mesorregião de Campos das Vertentes, evidenciam que a adequação dos procedimentos de higienização das mãos reduz drasticamente a ocorrência de Staphylococcus coagulase-positiva no ambiente de produção. Nesse sentido, programas de capacitação e orientação técnica mostram-se mais eficientes do que abordagens meramente punitivas, permitindo que os produtores compreendam a fundamentação científica das normas e as incorporem à sua rotina.
O monitoramento ambiental focado na identificação de pontos de controle pré-definidos auxilia no combate à contaminação cruzada dentro da área de processamento. Uma regulação equilibrada deve articular a aplicação de Boas Práticas Agropecuárias (BPA) na gestão da saúde do rebanho com as BPF na queijaria, prevenindo a multiplicação de germes indesejados antes mesmo do início do fabrico. Essa gestão ganha ainda mais eficiência quando fundamentada na análise de dados sazonais: variações climáticas, como o aumento das chuvas, elevam os riscos de contaminação da matéria-prima e exigem o reforço temporário dos protocolos de higienização.
6. Legislação, regulação e mercado
O ambiente normativo voltado para a produção queijeira artesanal passou por transformações expressivas nos últimos anos. No cenário brasileiro, a promulgação da Lei do Selo ARTE, em 2018, e sua posterior regulamentação representaram um marco importante, permitindo o comércio intermunicipal e interestadual de produtos de origem animal elaborados de forma artesanal, desde que submetidos à fiscalização oficial e ao cumprimento das boas práticas rurais e fabris.
Em âmbito internacional, a União Europeia consolidou, ao longo de décadas, o modelo de Denominação de Origem Protegida (DOP), que vincula formalmente a qualidade e as características do alimento ao seu meio geográfico de origem. Na queijaria artesanal, a DOP reconhece que os atributos sensoriais, físico-químicos e microbianos são moldados por fatores territoriais — o clima, a vegetação nativa, as raças adaptadas e o saber-fazer histórico. Essa certificação confere rastreabilidade ao consumidor, previne fraudes e atua como elemento central de valorização socioeconômica das regiões produtoras.
Historicamente, contudo, a coexistência entre os parâmetros sanitários industriais e o fazer artesanal gerou fricções. Normas concebidas para a produção em larga escala nem sempre se ajustam às instalações de pequeno porte ou aos processos fundamentados no leite cru e no uso de utensílios tradicionais, como os suportes de madeira. Experiências documentadas no Brasil e na França revelam que a imposição inflexível de padrões arquitetônicos e operacionais padronizados pode colocar em risco a permanência dos métodos tradicionais que definem a própria identidade dos queijos.
A busca por consenso pressupõe reconhecer as particularidades desses sistemas. Em produtos como o Queijo Serrano, a preservação do conhecimento tradicional e a compreensão das percepções locais de risco mostram-se fundamentais para desenhar estratégias sanitárias eficientes, superando a aplicação rígida de conceitos concebidos exclusivamente para a indústria. Embora a formalização regulatória abra novos canais de distribuição e impulsione a rentabilidade dos produtores, ela também traz desafios relacionados aos custos de conformidade burocrática, que ainda oneram excessivamente as pequenas propriedades.
Na Europa, a certificação geográfica traduz-se em ganhos comerciais consistentes, permitindo a agregação de valor e a conquista de preços diferenciais no mercado consumidor. Por outro lado, exigências de rotulagem e padrões normativos rigorosos podem erguer barreiras ao comércio regional ou à inserção de produtores de países em desenvolvimento, exigindo um esforço contínuo de adaptação técnica.
7. Desafios contemporâneos e perspectivas futuras
7.1 Pressões ambientais
A alimentação, a pastagem, a pele do teto e o coalho moldam de forma mensurável a microbiota do leite cru e do queijo artesanal com Denominação de Origem Protegida (DOP) feito com leite de ovelha, o que leva os autores a defenderem explicitamente a realização de pesquisas sobre quais composições de pasto e ração favorecem microbiotas benéficas.
A sazonalidade também altera a microbiota laticínia residente e a qualidade final do queijo, sendo que lotes produzidos no verão apresentaram maior presença de micróbios associados à deterioração e a perfis de sabores indesejados em um sistema tradicional italiano. As diferenças entre áreas de produção podem decorrer de práticas de manejo nas fazendas — como tipo de alojamento, uso de silagem e manejo das pastagens —, o que ajuda a explicar por que as designações territoriais não podem se basear exclusivamente na geografia.
A sazonalidade assume papel relevante porque os nichos ambientais e a microbiota do leite cru alteram os resultados sensoriais e de textura do queijo ao longo do outono, inverno e verão. A pastagem e a alimentação animal surgem como pontos estratégicos plausíveis para adaptações futuras, embora evidências diretas sobre o clima e o estresse térmico não tenham sido fornecidas neste conjunto de estudos. Paralelamente, efeitos do local podem ser sutis: a altitude alterou alguns táxons de menor abundância, mas não a diversidade global, ao longo de um gradiente de 800 metros em queijos coloniais artesanais brasileiros.
7.2 Ecologia microbiana e segurança sanitária
A qualidade e a segurança sanitária dos queijos artesanais dependem fortemente da microbiota ambiental presente nas instalações, nas ferramentas, no ar e nos locais de maturação. Estudos realizados em queijarias de fazenda e unidades de processamento demonstram que salas de fabricação, tanques de madeira, esteiras de bambu, cavernas de maturação, superfícies de contato com alimentos e os próprios manipuladores contribuem com microrganismos que moldam a fermentação, a sucessão da casca, o aroma e o risco de deterioração.
Essa contribuição microbiana é uma implicação ambivalente: táxons benéficos e genes associados ao sabor coexistem com fatores de virulência, genes de resistência a antimicrobianos, fagos e pontos críticos de contaminação. Por consequência, os sistemas artesanais necessitam de práticas de higienização direcionadas, em vez de processos de esterilização irrestritos.
Entre os pontos críticos de controle estão os sistemas de ventilação, utensílios de agitação, tubulações de entrada de leite, ralo/esgotos, tanques de salmoura, esteiras transportadoras e áreas de embalagem. Os riscos à segurança continuam reais em queijos artesanais de leite cru, com preocupações voltadas para falhas de higiene, Staphylococcus aureus, Enterobacteriaceae e variabilidade entre lotes. A identidade artesanal depende da diversidade microbiana, contudo, práticas industriais de segurança sanitária podem reduzir essa diversidade e a sua singularidade sensorial.
7.3 Autenticidade e inovação
Métodos analíticos podem reforçar a autenticidade artesanal sem substituir as práticas tradicionais. Para a detecção de fraudes e verificação de origem, a análise de isótopos e a impressão digital elemental mostram precisão consistente, enquanto técnicas de espectroscopia no infravermelho próximo (NIR) e ressonância magnética nuclear (RMN) são promissoras, mas necessitam de bancos de dados de validação ampliados; métodos baseados em DNA, especialmente metabarcoding e metagenômica, adicionam assinaturas microbianas associadas à origem e ao processo.
A metagenômica shotgun e o mapeamento do microbioma agora conseguem resolver os ecossistemas do queijo ao nível de espécie e cepa, reconstruir genomas montados a partir de metagenomas (MAGs), identificar funções de sabor, bacteriocinas, virulência, resistência, fagos e sistemas CRISPR, e até detectar cepas específicas de uma instalação registrada para a rastreabilidade.
O melhor modelo de integração consiste em utilizar a genômica para monitoramento e rastreabilidade, preservando os microrganismos nativos, fermentos naturais e ferramentas tradicionais.
As dinâmicas rurais e regulatórias também desempenham papel fundamental: os produtores necessitam de capacitação, redes de extensão, diretrizes específicas para a produção artesanal e critérios atualizados para DOP que reflitam os avanços científicos atuais em vez de uma tradição estática.
7.4 Alimentos identitários
A territorialidade e a identidade territorial resultam de processos de construção social em que os sujeitos se apropriam concretamente e simbolicamente do espaço, estabelecendo laços de pertencimento e solidariedade. Surge assim o conceito de alimento identitário desponta para caracterizar aqueles gêneros alimentícios que guardam conexão intrínseca com a memória cultural, a herança histórica e as características físico-naturais de um determinado recorte geográfico. Os alimentos identitários sintetizam uma cultura enraizada convertida em territorialidade, sustentando a reprodução social, econômica e simbólica de grupos rurais e comunitários na contemporaneidade.
O Queijo Minas Artesanal (QMA) expressa com clareza o conceito de alimento identitário. O "Modo de Fazer o Queijo Minas Artesanal", reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro (2008) e inscrito pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade (2024), traduz como a imaterialidade dos saberes coloniais e locais se materializa em um produto alimentício singular.
A gênese e o aperfeiçoamento da produção queijeira em Minas Gerais relacionam-se diretamente com o processo histórico de ocupação territorial e com as condicionantes edafoclimáticas do estado.
A designação e o reconhecimento formal das áreas produtoras de alimentos identitários cumprem um duplo papel socioespacial de extrema relevância. Em relação à dimensão institucional e regulatória, a delimitação de regiões produtoras oficiais possibilita que o Poder Público estabeleça balizas indispensáveis para a inspeção sanitária, a agregação de valor e a proteção socioeconômica contra os processos de homogeneização industrial.
Concomitantemente, no âmbito socioidentitário e geográfico, a criação de uma região delimitada ultrapassa a mera definição de um traçado cartográfico ou administrativo, configurando-se como o efetivo reconhecimento de uma territorialidade tecida por pequenos produtores rurais, pela agricultura familiar e por "novos rurais". Nesse cenário, o alimento passa a atuar como um elo fundamental de pertencimento, capaz de valorizar a paisagem, promover o turismo sustentável e viabilizar a permanência das famílias no campo frente às crescentes pressões do agronegócio e aos entraves regulatórios.
8. Conclusão
O conjunto de aspectos analisados permite compreender os queijos artesanais como produtos nos quais a herança cultural das comunidades produtoras encontra correspondência direta em seus fenômenos biológicos. A microbiota nativa, moldada pelo território, pelo manejo do rebanho e pelas técnicas transmitidas ao longo de gerações, sustenta tanto a tipicidade sensorial quanto os mecanismos que garantem a estabilidade e a segurança desses alimentos. O reconhecimento do Modo de Fazer o Queijo Minas Artesanal como patrimônio cultural da humanidade ilustra de que maneira esse conhecimento acumulado se converte em referência para a valorização de territórios e de comunidades rurais.
A continuidade dessa produção depende, contudo, de condições que extrapolam a esfera técnica e cultural. A permanência de pequenos produtores no setor está associada à sucessão familiar, ao acesso a crédito, assistência técnica e infraestrutura, elementos que raramente se resolvem sem a atuação coordenada do poder público. Nesse sentido, políticas públicas voltadas à regulamentação sanitária, ao fortalecimento das Indicações Geográficas e ao financiamento de assistência técnica mostram-se determinantes para conciliar a preservação dos métodos tradicionais com o cumprimento de padrões de inocuidade reconhecidos cientificamente.
Sustentar os queijos artesanais como patrimônio vivo da agricultura familiar brasileira supõe um esforço conjunto entre pesquisa científica, extensão rural e formulação de políticas públicas capazes de reconhecer as particularidades de cada sistema produtivo. Somente a partir dessa articulação será possível assegurar que a diversidade microbiana, a identidade territorial e a segurança dos alimentos permaneçam associadas, garantindo às futuras gerações a possibilidade de dar continuidade a um saber que atravessa séculos de história produtiva no país.
REFERÊNCIAS
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