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Queijos, nutrição e sustentabilidade

  • nuvlac
  • há 22 horas
  • 17 min de leitura


Introdução


Historicamente, o queijo consolidou-se como uma das tecnologias de preservação de alimentos mais antigas da civilização, surgindo da necessidade de transformar o leite — um produto altamente perecível — em uma reserva energética durável e transportável, reduzindo riscos sanitários e, simultaneamente, ampliando a complexidade sensorial do produto. Essa inovação não apenas permitiu o armazenamento de nutrientes essenciais, como proteínas, gorduras e cálcio, mas também fundamentou a base de dietas e economias em diversas sociedades ao longo dos milênios. Estudos históricos indicam que a produção regional remonta aos tempos do ciclo do ouro e das estradas reais, quando a transformação do leite em queijo constituía estratégia essencial de conservação e logística alimentar, permitindo transporte e comercialização em longas distâncias, frequentemente em lombo de animais.  

O modo artesanal de fazer o Queijo Minas Artesanal é reconhecido oficialmente como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o que reforça seu caráter simbólico enquanto expressão de memória coletiva, tradição e identidade regional. Atualmente, o queijo é compreendido como o resultado final de um sistema biológico complexo e integrado, cujo ciclo se inicia na saúde do solo e na gestão das pastagens, passando pelo bem-estar animal e culminando na ação de microbioma específicos que definem a identidade sensorial e a segurança do produto.

No cenário contemporâneo, a produção de queijos, situa-se no nexo entre a segurança alimentar, o desenvolvimento econômico regional e a preservação do patrimônio cultural. A literatura destaca que esses produtos funcionam como alavancas de resiliência para comunidades rurais, agregando valor à matéria-prima e mantendo o conhecimento tradicional por meio de selos de Indicação Geográfica e Denominação de Origem. Esse sistema enfrenta o desafio de equilibrar sua relevância sociocultural com as demandas ambientais modernas, como a gestão do uso da água e as emissões de gases de efeito estufa associadas à pecuária leiteira.

Emerge a necessidade de uma abordagem científica equilibrada para avaliar a sustentabilidade do setor. Metodologias recentes, como a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) ajustada pela densidade nutricional, propõem que o impacto ambiental dos queijos não seja mensurado apenas por quilograma de alimento, mas sim pelos nutrientes entregues ao consumidor. Essa avaliação permite reconhecer o queijo como um alimento de alta densidade nutricional, cuja produção, quando pautada pela economia circular e pelo reaproveitamento de subprodutos como o soro de leite, pode integrar dietas saudáveis e sustentáveis. O futuro da queijaria reside na inovação tecnológica voltada para a eficiência produtiva e na comunicação científica que oriente escolhas alimentares conscientes, integrando as dimensões ambiental, econômica e cultural.


O ciclo da produção láctea


O ciclo da produção láctea é um sistema biológico e técnico de alta complexidade que integra dimensões ambientais, fisiológicas e tecnológicas. Longe de ser um processo linear que se inicia na ordenha, a produção de leite é a culminância de um fluxo dinâmico de nutrientes que se origina na saúde do solo e na gestão ecossistêmica das pastagens. Segundo o conceito de "Futuro Lácteo" (Dairy Future), a sustentabilidade do setor depende de uma transição para modelos que priorizam a biodiversidade e a redução da dependência de insumos externos, transformando a fazenda em uma unidade de conservação e produção simultâneas. 

O solo atua como reservatório primário de elementos químicos e micronutrientes essenciais. A gestão regenerativa, que inclui a redução de fertilizantes sintéticos e a incorporação de biodejetos, é fundamental para manter a integridade do ciclo. Estudos indicam que o manejo de pastagens diversificadas, que mesclam gramíneas (como Lolium perenne) com leguminosas e ervas, não apenas melhora a estrutura do solo e a retenção de carbono, mas também altera qualitativamente o aporte de minerais para o rebanho. Essa translocação de nutrientes solo-planta-animal é o primeiro elo de uma cadeia que determina a densidade nutricional do leite e, consequentemente, a qualidade dos produtos derivados, como os queijos.

A interface nutricional e o bem-estar animal constituem o núcleo produtivo deste ciclo. A ciência moderna reafirma que "vacas felizes produzem leite melhor", uma premissa baseada no impacto direto das práticas de bem-estar sobre a fisiologia da lactação. O estresse térmico, por exemplo, é um dos principais gargalos mundiais, reduzindo drasticamente a produtividade e alterando a composição físico-química do leite. Sistemas que oferecem conforto térmico, acesso ao pastejo e nutrição equilibrada promovem uma resposta imunológica superior, diminuindo a necessidade de intervenções farmacológicas e o risco de mastites, o que eleva o padrão higiênico-sanitário da matéria-prima. O pastejo está associado a um aumento na concentração de ácidos graxos benéficos, como o CLA (ácido linoleico conjugado), agregando valor funcional ao produto. 

A circularidade, modelo econômico focado na redução, reutilização e reciclagem de recursos para minimizar o desperdício, surge como uma estratégia vital para mitigar os impactos ambientais associados à produção láctea, como as emissões de gases de efeito estufa e o uso intensivo de água. A valorização de subprodutos, como o soro de leite e o permeado, e a implementação de biodigestores para o manejo de resíduos, fecham as lacunas do ciclo, transformando passivos ambientais em ativos energéticos e fertilizantes. Essa abordagem de reaproveitamento e eficiência sistêmica é reforçada pelo uso de tecnologias de precisão. A Inteligência Artificial e o monitoramento automatizado permitem que o produtor tome decisões em tempo real sobre a saúde do solo, a nutrição identidade das vacas e a qualidade do leite, otimizando o uso de recursos e garantindo a rastreabilidade total da cadeia.

O ciclo da produção láctea é um depositário de identidade e territorialidade. Em regiões de tradição artesanal, como as Serras da Ibitipoca, o ciclo incorpora o "saber-fazer" local e a interação com micro-organismos nativos do ambiente (o terroir), que são essenciais para a maturação e o desenvolvimento do perfil sensorial único de queijos tradicionais. A produção láctea contemporânea deve ser vista como uma síntese entre a preservação biológica, o rigor tecnológico e o patrimônio cultural, sendo cada uma dessas etapas crucial para garantir que o alimento entregue à sociedade seja, ao mesmo tempo, nutritivo, ético e ambientalmente responsável. 


Terroir, microbiota e biodiversidade

O solo, as plantas das pastagens e o clima local moldam a microbiota do leite cru por meio da alimentação e da exposição sazonal, produzindo compostos voláteis distintos durante a maturação dos queijos, enquanto os selos geográficos protegem o saber-fazer local e as raças animais, promovendo a sustentabilidade ecológica e econômica quando aliados a uma governança adequada.

A composição do solo, a vegetação nativa e o clima local deixam assinaturas detectáveis na microbiota nativa do leite cru e na química do queijo, criando um terroir microbiano que varia até mesmo em pequenas áreas montanhosas, conforme demonstram estudos em queijos alpinos que correlacionam a altitude e o clima sazonal com impressões digitais lipídicas e voláteis. Variações no solo estão ligadas a diferenças mensuráveis nos atributos do produto, enquanto pastagens de maior altitude aumentam os níveis de terpenos e ácidos graxos, como os insaturados (PUFA)  e  o ácido linoleico conjugado (CLA), e o clima sazonal impulsiona a sucessão microbiana entre verão e inverno. Essas assinaturas microbianas são tão precisas que abordagens de análise genômica (metagenômica e metabarcoding) estão sendo exploradas para a autenticação geográfica de queijos tradicionais.

As comunidades microbianas originárias dos animais, pastagens e do ambiente da queijaria impulsionam transformações bioquímicas durante a maturação, moldando o aroma e o paladar por meio de bactérias láticas dominantes e perfis de voláteis compostos por cetonas, ácidos graxos e álcoois. A sucessão microbiana varia sazonalmente de acordo com as estações em regiões montanhosas, onde a dominância de Lactococcus no verão gera perfis ricos em ésteres, enquanto o inverno correlaciona-se a ácidos graxos de cadeia curta. Certas leveduras como a Diutina aumentam a lipólise e modificam os voláteis, enquanto outras como a Debaryomyces suprimem fungos deteriorantes, ao passo que terpenos das plantas são transferidos para o queijo, enriquecendo o aroma típico dos períodos de pastoreio.

Os esquemas de Indicação Geográfica (IG) e Denominação de Origem Protegida (DOP) vinculam a qualidade do produto ao local, às raças e ao conhecimento tradicional, servindo como instrumentos para valorizar a identidade rural e a biodiversidade. Esses marcos reforçam a identidade cultural, promovem a biodiversidade genética ao valorizar raças adaptadas e apoiam serviços ecológicos ao preservar a paisagem e os ecossistemas em áreas rurais. A literatura indica que os selos IG ou DOP não garantem a sustentabilidade por si sós, sendo eficazes apenas quando combinados com governança, engajamento de partes interessadas e políticas que protejam explicitamente os habitats e os meios de subsistência rurais.

A proteção de ambientes rurais e de seus modos de produção e de vida encontram sua expressão na preservação de produtos de identidade regional. A literatura evidencia que a identidade do queijo artesanal não se restringe ao processamento tecnológico, sendo profundamente moldada por fatores edafoclimáticos e territoriais. Essas variáveis geográficas influenciam diretamente o perfil sensorial do produto e sustentam a noção de terroir como elemento central de diferenciação regional. A materialização dessa dinâmica ocorre no cenário mineiro, com a região das Serras da Ibitipoca sendo formalmente reconhecida como área produtora de Queijo Minas Artesanal por meio da Portaria IMA nº 2.016/2020, o que representa um marco institucional para a valorização dessa cadeia produtiva.

A literatura evidencia que a identidade do queijo artesanal não se restringe ao processamento tecnológico, mas é condicionada também por fatores edafoclimáticos e territoriais, que influenciam diretamente o perfil sensorial do produto e sustentam a noção de terroir como elemento de diferenciação regional.  No caso mineiro, destaca-se que a região Sul, Sudoeste, Zona da Mata e Campo dos Vertentes foram formalmente reconhecidas como áreas produtoras de Queijo Minas Artesanal por meio da Portaria IMA nº 2.016/2020, configurando um marco institucional importante para valorização econômica, cultural e territorial dessa cadeia produtiva.

Sob o ponto de vista microbiológico, ressalta-se que a principal característica distintiva do Queijo Minas Artesanal é a utilização do pingo, fermento natural constituído por bactérias láticas endógenas associadas ao leite cru e ao ambiente produtivo local, determinando atributos específicos de aroma, sabor e textura e consolidando a singularidade regional do produto. O leite cru deve ser compreendido como uma matriz biológica ativa, portadora de microbiota diversificada que, quando composta por microrganismos benéficos e manejada sob rigorosas boas práticas, contribui para a formação do perfil sensorial típico do queijo artesanal, reforçando a necessidade de condições higiênico-sanitárias rigorosas ao longo do processo produtivo.

A produção de queijo artesanal no Brasil está fortemente associada à agricultura familiar, que representa parcela expressiva dos estabelecimentos rurais produtores de queijo e requeijão, evidenciando o papel estratégico desses alimentos para geração de renda, permanência no campo e fortalecimento territorial. 


Desafios ambientais da produção de queijos e sustentabilidade nutricional


A sustentabilidade nutricional analisa os alimentos em contextos simultâneos de saúde, meio ambiente, custo e cultura. Para o queijo e os produtos lácteos, uma questão central e amplamente defendida por pesquisadores é a mudança da pegada ecológica baseada na "por massa de produto" para métricas e unidades funcionais de medida que incluam a densidade nutricional, o fornecimento de nutrientes, o tamanho das porções e os papéis reais na dieta. A avaliação padrão de ciclo de vida (ACV) frequentemente relata impactos por massa de produto, o que penaliza alimentos concentrados e densos em nutrientes, como o queijo. Diversos trabalhos argumentam que as métricas ambientais deveriam ser expressas por 1000 kcal, por nutriente ou por unidade de qualidade nutricional, e não por massa (como tonelada ou kg) para refletir a real função do alimento e evitar o marketing equivocado de um alimento como ambientalmente responsável.

A pegada ambiental do queijo é predominantemente determinada pelo leite utilizado em sua composição, o que leva a maior parte das pesquisas a avaliar a produção e o processamento do leite na fazenda para, então, atribuir os impactos ao queijo e a outros derivados, relegando ao processamento industrial um papel secundário. A literatura científica combina a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), a avaliação nutricional do ciclo de vida (nACV), a pegada hídrica e novas unidades funcionais nutricionais para comparar sistemas e produtos de forma mais precisa. A nACV combina o perfil nutricional, como os índices de Alimentos Ricos em Nutrientes (NRF) ou pontuações de densidade nutricional composta, com indicadores ambientais, demonstrando que o ranking dos alimentos e dos sistemas de produção se altera drasticamente quando a nutrição é integrada. Especificamente para queijos, a medida por massa de produto superestima o impacto em comparação com alimentos de baixo teor de nutrientes e ignora o tamanho da porção, a medida por 1000 kcal vincula o impacto ao fornecimento de energia, e a medida por grama ou pontuação de densidade nutricional alinha o impacto com a entrega de nutrientes essenciais. Ao aplicar um Índice de Qualidade Nutricional (NQI) dependente da dieta a diversos alimentos, verificou-se que o potencial de aquecimento global (GWP) do queijo duro parece muito mais favorável quando expresso por unidade de qualidade nutricional do que por quilograma ou tonelada, evidenciando que os rankings ambientais dependem diretamente do contexto alimentar e se a dieta considerada é equilibrada ou não saudável.

Ao analisar detalhadamente os impactos ambientais e seus principais causadores na produção de leite cru, os gases de efeito estufa (GEE) são dominados pela fermentação entérica, pela gestão de dejetos e pela produção de ração. O metano entérico (CH4) é impulsionado pela ingestão de matéria seca e pela eficiência da conversão alimentar, sendo que fibras dietéticas e lipídios ajudam a modular essas emissões. Rebanhos de alta produtividade apresentam menor impacto nas mudanças climáticas por massa de leite produzido. Com relação aos sistemas de manejo de dejetos, o armazenamento de líquidos a longo prazo, como em lagoas ou chorume, são uma fonte significativa de metano (CH4) frequentemente subestimada em inventários. O esterco sólido com aplicação diária no solo costuma emitir menos por massa de leite, e o uso de digestão anaeróbica ou separação sólido-líquido reduz drasticamente essas emissões. A intensidade típica de gases do efeito estufa varia conforme o contexto e tipo de produção.

Os impactos relacionados à água e ao uso de recursos também são dominados pela produção de ração, especialmente em regiões com escassez hídrica, de modo que a fase agrícola chega a representar mais de 60% desses impactos. Nas plantas de processamento, a pegada hídrica total média observada em estudos foi de 9 L/kg de leite processado, sendo que cerca de 89% desse volume provêm do uso indireto de água na eletricidade, com apenas 3,3L/kg referentes ao uso direto de água subterrânea. Plantas maiores e operando com capacidade total apresentam pegadas menores por massa de produto. A escassez regional deve ser levada em conta, pois a realidade local altera os resultados: em certas regiões, embora as pegadas gerais estivessem próximas aos padrões continentais, a pegada de escassez hídrica mostrou-se dez vezes maior devido à escassez local, evidenciando a extrema importância do contexto geográfico.  

A intensidade de produção e os sistemas de manejo revelam importantes compensações entre eficiência por produto e pressão territorial. Fazendas mais intensivas, de maior rendimento e com gestão aprimorada geralmente possuem impactos menores por massa de leite, tendendo a reduzir as pegadas hídricas e menores emissões de gases do efeito estufa por unidade de massa, porém podem apresentar resultados piores por hectare e uma pegada ecológica superior, elevando a pressão nos ecossistemas locais. Um estudo em fazendas confirmou que o sistema mais intensivo tinha o menor potencial de aquecimento global por unidade de medida de leite, mas o sistema menos intensivo e autossuficiente em ração apresentou melhores resultados quando os impactos foram medidos por hectare. Em sistemas de pastagem, a transição para métodos mais eficientes reduziu os impactos por massa de alimento, mas aumentou o GWP por hectare devido à maior taxa de lotação. Nos Sistemas Integrados de Lavoura-Pecuária, a integração baseada apenas em fatores econômicos pode elevar os custos ambientais. A imposição de limites rígidos para emissão de gases do efeito estufa (GEE), amônia, a redução de insumos externos ou a conversão para pastagens permanentes reduzem as emissões, mas também diminuem as margens brutas da atividade leiteira.

Esses custos ambientais e trade-offs revelados pelo uso de Unidades Funcionais (UFs) nutricionais devem ser pesados contra as altas contribuições de proteínas e micronutrientes dos lácteos. Leite, iogurte e queijo são descritos como alimentos densos em nutrientes, acessíveis e culturalmente aceitáveis, fornecendo proteínas de alta qualidade e micronutrientes essenciais como cálcio e iodo, embora carreguem fardos ambientais por quilo mais elevados do que os alimentos básicos, especialmente para o clima e a eutrofização. Os impactos "nutricionalmente investidos" revelam que queijos duros com alto uso de leite têm pegadas elevadas por quilo, mas o desempenho relativo muda quando comparado por grama de nutriente, tornando alguns alimentos de alto impacto por quilo muito mais competitivos por unidade de nutriente entregue e alterando os rankings ambientais entre as variedades de acordo. Isso reforça a orientação de que os índices de densidade de nutrientes são unidades funcionais complementares adequadas na ACV, muitas vezes correspondendo melhor às diretrizes dietéticas do que as métricas baseadas na massa.

No que diz respeito às substituições alimentares, adequação, custo e aceitabilidade, a redução de carne e lácteos diminui os gases de efeito estufa e o uso da terra, mas a substituição total pode criar lacunas de micronutrientes, a menos que as substituições sejam cuidadosamente planejadas. Em estudos com adultos, a substituição de 30% da carne e dos laticínios por alternativas vegetais melhorou alguns nutrientes e reduziu os impactos ambientais em 14%, enquanto a substituição de 100% aumentou significativamente os riscos de inadequação de cálcio, vitamina A, B12, zinco e possivelmente iodo, apesar de uma redução de mais de 40% no impacto ambiental. Em contrapartida, dietas com maior teor de lácteos apresentaram melhor adequação nutricional, maior qualidade geral da dieta, menores índices de pressão arterial e menor custo por unidade de minerais essenciais. Análises comparativas mostram que as alternativas vegetais aos produtos lácteos costumam ser mais caras e, frequentemente, mais pobres em proteínas e cálcio, sendo consideradas substitutos práticos de conveniência, mas não substitutos nutricionais plenos para os laticínios.

Social e culturalmente, os lácteos carregam um apego, tradição e apelo sensorial. Ferramentas voltadas para o consumidor e o meio ambiente raramente capturam a densidade nutricional e a sustentabilidade de forma conjunta, evidenciando uma lacuna de medição crônica no nível do varejo.

Para posicionar o queijo e os laticínios dentro de dietas saudáveis e sustentáveis de forma definitiva, estudos evidenciam que as dietas devem ser simultaneamente ricas em nutrientes, acessíveis, culturalmente aceitáveis e ambientalmente poupadoras, aceitando que haverá compensações inevitáveis entre esses domínios. Revisões de padrões alimentares sustentáveis mostram que dietas do tipo mediterrânea, com consumo moderado e não eliminado de laticínios, podem alcançar uma excelente qualidade nutricional com pegadas ecológicas menores do que os padrões ocidentais típicos, ao passo que a remoção completa dos lácteos levanta sérias preocupações em relação ao cálcio e à vitamina D, a menos que haja uma compensação planejada. Estudos de revisão literária posicionam o queijo e os produtos lácteos como alimentos nutricionais e eficientes de dietas sustentáveis sob três condições principais: primeiro, quando avaliados pela qualidade dietética em vez de por massa; segundo, quando as porções consumidas são moderadas dentro de padrões alimentares que contenham alimentos vegetais e sem excesso de carnes de alto impacto ambiental e terceiro, quando as políticas e métricas equilibram explicitamente o valor nutricional concentrado, o custo econômico e os impactos ambientais.


Economia circular, queijos artesanais e valorização de subprodutos


A economia circular tem sido incorporada aos sistemas alimentares como estratégia para mitigar desperdícios, otimizar o uso de recursos naturais e ampliar a sustentabilidade das cadeias produtivas. No setor lácteo, esse conceito ganha protagonismo devido ao expressivo volume de resíduos fluidos gerados durante o processamento do leite, especialmente na atividade queijeira. A valorização integral da matéria-prima, o reaproveitamento de frações remanescentes e o fortalecimento de arranjos produtivos locais representam caminhos consolidados rumo à sustentabilidade setorial.

No cenário dos queijos artesanais, essa dinâmica se expressa na valorização dos circuitos curtos de produção e consumo. Vinculada frequentemente à agricultura familiar e às práticas tradicionais de manejo, a produção artesanal funciona como um motor de desenvolvimento territorial e geração de renda. Sob a ótica circular, esses sistemas reduzem a dependência de insumos externos e a pegada logística de transporte, ancorando o valor econômico e ecológico diretamente na comunidade de origem.

Entre as frações geradas na fabricação de queijos, o soro representa o maior desafio e, simultaneamente, a maior oportunidade. Estima-se que cerca de 85% a 90% do volume total de leite processado seja convertido em soro, retendo parcela significativa dos nutrientes originais, como lactose, proteínas solúveis, vitaminas e minerais (Smithers, 2008). Historicamente negligenciado e tratado como mero resíduo industrial, seu descarte inadequado impõe severos riscos ambientais devido à alta carga orgânica, mensurada por índices críticos de Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) e Demanda Química de Oxigênio (DQO).

O avanço nos processos de separação por membranas, concentração e secagem transformou radicalmente esse panorama nas últimas décadas. Essas tecnologias permitiram isolar componentes específicos do soro, convertendo-o em um ingrediente de alto valor comercial e nutricional. Suas proteínas possuem notável qualidade nutricional e perfil completo de aminoácidos indispensáveis, além de abrigarem peptídeos bioativos com potenciais efeitos fisiológicos e funcionais no organismo.

Atualmente, essa matéria-prima secundária subsidia indústrias que vão da panificação à nutrição esportiva. O soro é amplamente reinserido na cadeia alimentar por meio da fabricação de ricota, bebidas lácteas fermentadas e formulações de suplementos proteicos concentrados e isolados (whey protein). Da mesma forma, o permeado de soro, rico em lactose e minerais obtidos após a ultrafiltração, é aproveitado em processos fermentativos e formulações industriais, enquanto o leitelho, derivado da bateção do creme para a fabricação de manteiga, atrai interesse científico e comercial pelo seu conteúdo em fosfolipídios de membrana e compostos funcionais benéficos à saúde.

Apesar da robustez tecnológica disponível, a transição para uma bioeconomia circular plena enfrenta sérios gargalos logísticos e operacionais. Para pequenas agroindústrias e queijarias artesanais, o custo de aquisição de plantas de filtração e secagem é proibitivo, e a dispersão geográfica dos produtores inviabiliza a coleta e o transporte do soro fluido antes de sua degradação. Assim, o fortalecimento desse elo exige modelos associativos de processamento e adequações regulatórias que permitam aos pequenos produtores internalizar os benefícios econômicos do aproveitamento desses subprodutos.


Perspectivas futuras: inovação, tecnologia e queijos mais sustentáveis


A transição para sistemas alimentares resilientes impõe transformações profundas na cadeia produtiva de leite, exigindo a convergência entre incremento na produção e preservação ambiental. A sustentabilidade futura do setor de queijos depende do alinhamento entre manejo ecológico no campo, ecoeficiência industrial nas fábricas e a adoção de tecnologias capazes de mitigar emissões atmosféricas ao longo de todo o ciclo de vida do produto.

Dentro da porteira, a otimização da eficiência agropecuária desponta como vetor primordial para a redução da pegada ecológica por volume de leite produzido. Avanços em nutrição animal de precisão, melhoramento genético focado em resiliência, monitoramento sanitário automatizado e técnicas de manejo avançadas permitem produzir mais alimentos utilizando menos terra, água e insumos, diminuindo a intensidade de emissões de gases de efeito estufa.

Na interface ambiental e agronômica, o manejo sustentável de pastagens e os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) redefinem a pecuária leiteira. Práticas como o pastejo rotacionado e a recuperação de solos degradados evitam processos erosivos e maximizam o sequestro de carbono na biomassa radicular. Adicionalmente, a inserção do componente florestal nos sistemas ILPF proporciona conforto térmico e bem-estar aos animais, mitigando o estresse calórico e otimizando a conversão alimentar em pastagens mais produtivas.

O destino de dejetos zootécnicos e efluentes agroindustriais também ganha contornos de inovação energética e biotecnológica. A instalação de biodigestores em propriedades e laticínios viabiliza o tratamento anaeróbio de resíduos orgânicos, mitigando o escape de metano para a atmosfera e gerando duas saídas valiosas: o biogás e o biofertilizante. Essa abordagem converte passivos ambientais em fontes de energia renovável e promove a reciclagem de nutrientes essenciais no solo, reduzindo a dependência de fertilizantes químicos sintéticos.

Na etapa de processamento industrial, a descarbonização é impulsionada pela transição da matriz energética e pelo surgimento de tecnologias ecoeficientes. O uso de energia solar fotovoltaica e de sistemas térmicos solares tende a ocupar espaço, gradativamente, frente ao consumo de combustíveis fósseis nas etapas térmicas de pasteurização, refrigeração e secagem. Paralelamente, o emprego de tecnologias não térmicas, como o ultrassom de potência, altas pressões hidrostáticas e pulsos elétricos, surge como alternativa promissora para higienizar e conservar o leite com menor demanda de calor, preservando as características sensoriais e nativas da matéria-prima.

Na etapa final da cadeia, o desenvolvimento de embalagens sustentáveis assume papel estratégico contra o desperdício. A substituição de polímeros plásticos convencionais por materiais biodegradáveis, compostáveis e de base biológica reduz o volume de resíduos pós-consumo. As pesquisas em embalagens ativas, que interagem com o alimento liberando agentes antioxidantes ou antimicrobianos naturais, estendem a vida útil dos queijos no varejo e reduzem as perdas por deterioração prematura.

A consolidação dessas perspectivas futuras, contudo, requer superar barreiras financeiras e de capacitação técnica. A implantação de sistemas ILPF, a transição para energia solar e a modernização de plantas industriais demandam aportes de capital que fogem à realidade da maior parte dos produtores de leite e pequenas queijarias. O desenho de um futuro sustentável para o setor depende, portanto, de políticas públicas de fomento, linhas de crédito verde acessíveis e assistência técnica continuada, garantindo que a inovação tecnológica se converta em uma realidade inclusiva para toda a cadeia produtiva.


REFERÊNCIAS


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Execução

Execução

Universidade Federal de Juiz de Fora

Parceria

Parceria

Instituto de Laticínios Cândido Tostes

Parceria

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Agência de Inovação de Leite e Derivados

Apoio

Apoio

Associação Brasileira das Indústrias de Queijo

ABLV

ABLV

Associação Brasileira das Indústrias de Leite Longa Vida

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